O mito da beleza e a possibilidade da resistência a este mito*
As práticas cotidianas da cultura midiática constroem e renovam na atualidade e nos países ocidentais, uma imagem ideal da feminilidade. A posição que lhes é imposta por essa imagem as situa sob o olhar dos outros: homens e mulheres, conscientes do seu próprio reflexo. Seja qual for sua idade, elas são presas para os discursos ideológicos que constroem a imagem da beleza feminina. Segundo esta perspectiva, as mulheres são ou deveriam ser magras, brancas, ricas o bastante para se vestir e se maquiar segundo a última moda, eternamente jovens e felizes, sem imperfeição, dóceis e passivas, heterossexuais.
Por causa, sobretudo da pressão de seus pares, mas também dos membros de sua família, a resistência direta por parte das moças e jovens às mensagens sedutoras da mídia permanece, na maior parte dos casos, inconcebível. As mensagens de uma sociedade patriarcal, racista e classista, formam, muito freqüentemente, o gosto e determinam a maneira de se olhar bem como a maneira de olhar os outros e o mundo.
Elas tomam por sua realidade os fantasmas que os outros criaram para elas. Sua entrada no corpo e na intimidade das meninas e das mulheres assegura que as estruturas heterossexuais do patriarcado conservem sua forças a tomar como seus próprios desejos o que os Fenômenos paradoxal, essa aceitação do mito da beleza e a adesão às normas da sociedade de consumo que os sustenta parecem se intensificar no momento mesmo da história ocidental em que se concebe como já adquirida a liberação das mulheres e das meninas.
Minha opinião é que o efeito destas mensagens sobre o sentido da identidade pessoal, do comportamento individual, sobre as relações íntimas, relações sociais, e sobre nossa maneira de habitar o espaço se exerce, inevitavelmente, em níveis, ao mesmo tempo superficiais e profundos.
Pois é um instrumento ideológico pelo qual a sociedade exerce o controle sobre as mulheres, não apenas sobre sua aparência, mas também sobre seus espíritos e suas almas. Não é nem mesmo necessário impor diretamente este controle. As mulheres vigiam-se de espontânea vontade, manipulando seus próprios corpos com intervenções cirúrgicas e farmacêuticas. Elas se observam umas às outras também, julgando as maneiras corporais e comportamentais com que suas filhas, suas colegas, suas amigas e mesmo sobre como desconhecidas se apresentam. Muito freqüentemente, as relações entre as mulheres – isto se vê claramente entre as adolescentes – são relações de rivalidade e de desconfiança. Ciumentas umas das outras devido aos critérios de beleza que aprenderam, elas não têm a possibilidade nem de afirmar sua própria liberdade, nem de desenvolver a base de um movimento de solidariedade entre mulheres e meninas.
Um elemento do mito da beleza que me inquieta particularmente é a representação das meninas e das mulheres em ociosidade. Nas imagens mais freqüentes elas não seguram nada; não utilizam ferramentas, não manipulam nenhum objeto – como um instrumento musical ou uma raquete de tênis – o que sugere que elas escolhem seus prazeres e têm o direito de controlar suas próprias atividades. Tal representação da inatividade feminina sugere ainda que as mulheres não experimentam desejo específico, à parte o estereótipo de querer agradar aos homens. Elas não se interessam por outras atividades, nem por questões que afligem no mundo.
Como se tem dito há séculos: "Seja bela, e cale-se." O sistema capitalista diz com força e insistência às mulheres: Seja bela e vá ler. Você não será nunca suficientemente bela, mas continue a comprar coisas, sobretudo as imagens estereotipadas. É o olhar dos outros – e o julgamento que se percebe como violento, veiculado por esse olhar – o que assegura a eficácia das pressões para o conformismo cultural.
Livia Polonis 22h03
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